Você está pronto para ser Treinador de Voleibol, para o alto nível?

 

 

          Em 1976, fui o preparador físico da seleção brasileira adulta feminina que disputou o campeonato mundial, no Canadá. A Comissão técnica era formada pelo treinador, o Prof. José Paiano, e por mim.  O Paiano foi sozinho ao campeonato, pois a CBV, à época, alegou não ter condições financeiras para bancar a minha passagem.

         

          Nos tempos atuais, quando se assiste a um treino ou a um jogo de uma seleção nacional ou de uma equipe de clube de alto nível, não é incomum visualizar comissões técnicas compostas de um número de profissionais superior ao de atletas. Para atender às necessidades diárias do acompanhamento e preparação adequados  das equipes, exige-se hoje a atuação de diferentes profissionais, tais como: treinador, auxiliares do treinador, (técnicos e operacionais: “os braços”), preparadores físicos, psicólogos, médicos, fisioterapeutas, estatísticos, nutricionistas, supervisores, dentre outros.

 

          Impressiona como, nos últimos 50 anos a ciência transformou o treinamento desportivo e, por consequência, a preparação dos atletas e equipes do nosso esporte. O inverso também se constata, pois, a evolução técnica e tática, coletiva e individual, além da intensidade nas ações de jogo, estimularam as pesquisas científicas na busca de respaldos psicomotores, para que a eficácia pudesse ser contemplada.

 

          A citada transformação revolucionou o perfil do treinador de voleibol, pois ao ser mantida a exigência dele como coordenador e líder de toda a equipe – grupo de atletas e toda a comissão técnica - a sua formação profissional teve que ser, em muito ampliada e se tornar multidisciplinar. Não basta conhecer voleibol, um pouco de preparação física e se considerar um bom líder.

 

          Para estar à altura das necessidades modernas dos atletas, promover a conexão entre os conteúdos dos profissionais de diferentes áreas, e poder exercer uma liderança produtiva, o treinador deve estudar muito para conhecer o máximo que puder de todas as especialidades que interagem no cotidiano de seu trabalho.

 

          É comum encontrar pessoas que não compreendem essas necessidades e desmerecem os técnicos das grandes equipes e as suas capacitações profissionais. Muitas pessoas, por desconhecimento da realidade vivida no dia a dia de uma equipe, consideram que lidar com um grupo de atletas de alto nível, tendo o respaldo de uma extensa comissão técnica, é uma tarefa muito simples. Será? Algumas considerações merecem ser apontadas para a nossa reflexão: você, que está lendo este ensaio, está preparado para ser o treinador de uma grande equipe ou da Seleção Brasileira? Vamos então elencar alguns conhecimentos e competências imprescindíveis para que você possa julgar se está pronto para o desafio acima proposto.

 

          O conhecimento primordial é a respeito do voleibol, claro! Para que seja considerado um treinador para o alto nível, o treinador deve conhecer, com riqueza de detalhes, as técnicas propícias para a eficácia da execução nos diferentes fundamentos do jogo, e as suas adequações exigidas em cada situação problema criada pela complexidade inerente à prática do voleibol. A identificação da exigência da interação cognitiva com a motora para a tática individual, é que vai permitir ao treinador criar, em seus treinos, estimulações que realmente desenvolvam muitos recursos técnicos necessários à um atleta inteligente e eficaz. 

 

          O emprego das várias técnicas do voleibol é solicitado quase sempre de forma diferente para atender às especificidades próprias de cada uma das funções táticas que compõem atualmente as estratégias básicas do jogo. Portanto, o treinador deve conhecer as citadas nuances e treiná-las respeitando as potencialidades diferentes dos atletas que jogam nas mesmas funções táticas de sua equipe. É evidente que cada momento do planejamento e da periodização, determinará os conteúdos e as metodologias a serem desenvolvidos.

 

          Conhecer tudo sobre Aprendizagem Motora e os fatores que interferem na mesma, é crucial para um bom treinador. Tanto para saber como ensinar novas habilidades, como para saber corrigir o movimento que já está automatizado de um atleta adulto; identificar qual o melhor tipo de prática em cada situação; dominar o uso de feedbacks, quando, como e quanto usar; auxiliar o atleta no estabelecimento de metas a alcançar no curto, médio e longo prazos, ou ainda como e quando utilizar instruções e demonstrações. 

 

          O treinador moderno tem que se preocupar em estudar constantemente os princípios e as tendências das armações estratégicas de equipes. Ele deve estar atualizado, ser criativo e ousado. Isso permitirá montagens de equipes que representem fielmente, o maior potencial de composições coletivas que a interação e a somatória das características dos atletas que compõem o seu grupo, permitir.

 

          Não se admite, ano após ano, que equipes que trocam seus atletas a cada temporada, apresentem sempre o mesmo perfil estratégico. Será que o treinador que assim procede, só conhece uma maneira de montar as suas equipes? Será que as alterações estratégicas e táticas que surgem com o passar dos tempos não merecem atenção? As armações estratégicas das equipes privilegiam, no voleibol moderno, a interrelação entre os diferentes tópicos táticos de forma que, dentro da complexidade entre as ações, haja coerência e sincronia entre eles. Dessa forma, as táticas utilizadas pelas equipes, em cada tópico tático, são planejadas a partir da real capacitação de eficiência e eficácia daquelas que lhes antecedem. Por exemplo: pode uma equipe ter como base ataques rápidos nos sideouts, baseados nas ações de primeira bola, se a sua linha de recepção de saque não é muito confiável e regular? As decisões quanto a essas armações estratégicas, devem ser planejadas pela comissão técnica após minuciosa avaliação do seu grupo de atletas.  

 

          Outro fator que interfere nos planejamentos estratégicos e táticos das equipes, é a composição de cada grupo. A definição do sexteto titular determinará, muitas vezes, quais qualidades dos reservas mais colaborarão para o sucesso do grupo. Esta definição, sempre que possível, deverá satisfazer várias situações que poderão surgir ao longo de uma temporada. A troca de um titular que não esteja em seus melhores momentos, por outro atleta de características semelhantes, é algo de fácil previsão. Já as substituições visando mudanças táticas e na maneira de jogar, devem ser planejadas no momento inicial da temporada, à época da elaboração do planejamento, onde devem estar previstas as características das equipes oponentes e as dificuldades que serão encontradas. Isso requer muito estudo e planejamento.

 

          Saber lidar com os diferentes perfis psicológicos também deve ser considerado, de forma a se compor um grupo coeso, determinado e vencedor. É relevante apontar que o voleibol profissional traz interferências nas relações entre atletas e componentes das comissões técnicas das equipes. Não são todos os atletas profissionais que aceitam, de bom grado, a condição de reserva. Não é fácil, para o treinador, liderar um grupo composto por atletas que têm aspirações momentâneas distintas. Cada um dos jogadores pensa na sua carreira em termos de oportunidades de projeção atlética e financeira envolvidas. Cada jogador está em um momento da carreira, portanto tem sonhos únicos e recebe as orientações para comportamentos, para dentro e fora da quadra, de acordo com as suas conveniências. Cada atleta tem seu ego, seu traço de humor, o que torna difícil a liderança do grupo todo.  

 

          Outro complicador, nos tempos atuais, é a presença constante da figura do “agente”, que é o empresário que faz a gestão da carreira de cada jogador, e que nem sempre tem os mesmos objetivos das comissões técnicas dos clubes, e muitas vezes, também não tem conhecimento técnico para bem planejar a carreira dos seus atletas.

 

          Portanto, não é tarefa fácil um treinador conciliar os interesses de todos os seus comandados, para colocá-los todos à disposição da busca do bem comum. O exercício da profissão de treinador exige uma formação cada vez mais multidisciplinar, mais diversificada e detalhista.

 

          Não é possível que os planejamentos anuais, e de cada etapa de uma periodização, sejam feitos e desenvolvidos sem que haja uma harmonização dos objetivos, conteúdos e estratégias traçados pelos responsáveis pelo treinamento técnico e tático, com aqueles determinados pela preparação física. A capacitação do treinador sobre a prescrição de cargas de trabalho é que vai garantir que os treinos tenham a qualidade ideal para cada sessão de treino. O treinador deve se sentir também responsável pela preparação atlética dos seus atletas, pois as estimulações dadas ao organismo de cada atleta, refletem a somatória das cargas produzidas pelos treinamentos técnico, tático e físico. O lado emocional também interfere. Os treinos devem, portanto, harmonizar todos os tópicos envolvidos, pois eles são interdependentes.

 

          O treinador também deve ter ciência das orientações feitas pelo nutricionista de sua equipe, pois a cada momento do planejamento o desgaste energético é peculiar, o que implica em alterações quanto às reposições energéticas. Essa variação também é corriqueira nas alterações da planificação dos dias de treinos e os de jogos. Também há a necessidade de um acompanhamento das orientações individuais.

 

          Claro que um treinador não precisa ser um estatístico, mas é importante que ele consiga bem interpretar os dados trazidos a ele pelos profissionais responsáveis pela área. Somente treinadores que consigam identificar as origens e razões dos dados estatísticos é que vão conseguir bem elaborar planos de treinos e de jogos. Essa virtude também é essencial para a boa condução das equipes durante as partidas. É interessante apontar que durante os jogos, os estatísticos apresentam os dados estatísticos coletados, entretanto as decisões sobre como eles serão utilizados são sempre do treinador.

 

          Outro aspecto muito determinante na atuação de um treinador é o referente à sua liderança. Todas as grandes equipes contam com atuação de psicólogos que procuram identificar os traços de personalidade dos atletas e ajudá-los a ter comportamentos e atitudes que lhes propiciem boas performances. Todavia na hora dos treinos, e principalmente dos jogos, é o treinador que se relaciona com os jogadores e exerce a sua liderança na busca do melhor desempenho de cada um e do grupo. Caso não ocorra um perfeito entrosamento entre as orientações dos psicólogos e do treinador, é muito provável que os resultados não sejam os desejados. Para que o treinador possa entender os conteúdos e estratégias sugeridos pelos psicólogos e colocá-los em prática, é importante que ele se inteire, um mínimo, sobre matéria.

 

          Já que a relação do treinador com seus atletas, durante os jogos, foi acima mencionada como fator determinante, ela somente terá eficácia se uma boa liderança for acompanhada por instruções técnicas e táticas que façam a diferença. Para tanto é fundamental que o treinador não apenas olhe, mas enxergue o jogo, pois suas instruções devem ser alicerçadas pelas ações que realmente ocorrem no jogo e por quais razões elas acontecem. Nos tempos para descanso os atletas esperam, além de motivação, por caminhos adequados para resolução dos problemas trazidos pelo confronto. Essa capacitação de orientar, apesar de ter sido muito facilitada graças pelo apoio do acompanhamento estatístico do jogo, pela comissão técnica através de tablets, requer do treinador muita atenção, raciocínio, conhecimento e anos de experiência.

 

          Ao preparar o seu plano de jogo para um confronto específico, é recomendado que o treinador também leve em consideração as características da comissão técnica do futuro adversário. Conhecer os “modus operandi” do treinador adversário, antes e durante as partidas permite antecipar tomadas de decisões e evitar surpresas.

 

          A necessidade de constantes atualizações, anteriormente citada, em muito é dependente da importância que o treinador dá à autocrítica. A busca de um constante aperfeiçoamento permitirá atualizações e o encontro de novos caminhos e soluções ao profissional do nosso esporte. Sempre, após os treinos, os jogos, os campeonatos e as temporadas, o treinador deve avaliar, com seriedade, o seu trabalho na busca da identificação dos acertos, dos enganos, o que deve ser mantido e o que precisa ser aperfeiçoado. Ele deve primeiramente fazer uma avaliação do seu trabalho individual, para depois fazer uma avaliação com a sua comissão técnica. As avalições com o grupo de atletas dependem em muito das autoavaliações os integrantes do corpo técnico.

 

          Todo treinador deve ter em mente obter a melhor capacitação que ele pode atingir, mas deve ter ciência que ela jamais será um produto finalizado. Até o último dia do exercício da profissão o treinador terá algo a aprender e deve estar receptivo para tal. Afinal ele trabalha com pessoas – atletas e demais profissionais – que têm obsessão por superações em suas performances. E deve se portar sempre como adepto da ciência.

 

          Deve ser considerado também, para formação dos treinadores, que ao longo de suas carreiras eles vão trabalhar em vários clubes com potenciais financeiros e com infraestruturas diferentes. Isso solicitará muitas adaptações na organização dos planejamentos, das atividades e de sua liderança, coisa que demanda muito conhecimento e bom senso.

 

          Por fim, os treinadores têm o dever de contribuir com a evolução do Voleibol. Encontrar novos caminhos para as execuções das técnicas, das táticas coletivas e individuais, das montagens e direções de equipes. Essas novidades devem se transformar em materiais de estudos para toda a comunidade do nosso esporte através de publicações de fácil acesso. O Brasil é um dos melhores no Voleibol no mundo, e possui alguns dos melhores treinadores e preparadores físicos da história do esporte, entretanto, apresenta pouquíssimas publicações sobre ele. Países como Japão, USA, Itália, Portugal, Argentina e França, dentre outros, nos superam, em muito neste quesito. É importante lembrarmos que quem não publica, pouco estuda, não pesquisa e não descobre novos caminhos. E principalmente não colabora para a formação de novos profissionais de qualidade.

 

          Ao término de sua carreira, e ao avaliar a sua atuação ao longo dela. Um grande treinador não deve se orgulhar apenas dos títulos conquistados, mas das contribuições que deu para a evolução da prática do nosso esporte, para a metodologia do seu treinamento e evolução do voleibol brasileiro.

 

          Ainda sobre o tema, em um próximo estudo, vamos abordar a relação dos treinadores com dirigentes de clubes, agentes de atletas, empresas patrocinadoras, federações e CBV, etc. Também traremos das diferenças entre os treinadores funcionários de clubes e com aqueles que são donos dos projetos.

 

          Depois de ler e refletir sobre os conteúdos que este breve estudo trouxe, espero que você reconheça que tem, além de amor pelo voleibol, disposição e coragem para exercer a profissão de TREINADOR DE VOLEIBOL, pois ela é desafiadora e apaixonante!